Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Natal contemporâneo (parte VI)

Tudo aconteceu no seu oitavo dia de tortura. No meio de todos os recipientes de piolhos com pedidos banais (uns mais excêntricos que outros) ouve um pedido que se destacou dos demais, um desejo que revelou uma personalidade com potencial, um miúdo que se tornava um paradigma em potencial do ser humano, aos olhos de Felipe claro.

 Esse profeta em miniatura apareceu de tarde, e quando perguntado o que queria ele pelo Natal, o iluminado disse que: “queria saber porque estava vivo, e queria nunca ser como os outros meninos que não pensavam nisso e eram fáceis de enganar” e aproveitou para acrescentar que “não acreditava no Pai Natal e que o senhor é só um homem normal vestido de uma maneira engraçada”.

 Felipe reviu-se a si próprio naquela criança, as preocupações existenciais, o desprezo pelo resto da humanidade, a atitude snob, tudo naquele rapaz suscitava em Felipe uma adoração narcisista. Aquilo sim era um exemplo para a humanidade, aquilo sim era uma criança consciente, aquilo sim era um protótipo de uma sociedade inteligente. Tão novo e tão consciente pensou repetidas vezes Felipe, deleitado pela personagem que conhecera naquele dia.

 Nos dias seguintes Felipe (na sua posição privilegiada) observou os hábitos do miúdo (que era na realidade um habitué daquela superfície comercial) Filipe observou a sua maneira de andar, de mãos nos bolsos, olhos no chão, movimento lento e pesaroso e atitude melancólica, observou que tipo de montras o rapaz via, montras de livrarias, e olhava para os livros com fascínio, emitindo um suspiro que produzia o som “hmmpfh” e significava “quem me dera saber ler”, observava a maneira com que olhava com desdém e desinteresse para os outros miúdos, observava a maneira pensativa como o rapaz olhava para insectos mortos. E tudo isto fascinava Felipe, todo aquele brilhantismo em bruto fazia o seu espírito rejubilar, todas as semelhanças entre o miúdo e ele criavam um sentimento de ternura platónica e paternal e enchia-o de esperança de haver alguns mais iguais a eles.

 Até que um dia Felipe teve a oportunidade de falar com ele. A tarefa de um estranho ficar sozinho com uma criança pode parecer improvável, tendo em conta os índices de confiança no próximo actuais, mas torna-se muito mais simples quando esse mesmo estranho está trajado de um largo fato vermelho com gorro, barba postiça e botas de plástico. Bastou a Filipe oferecer-se como ama (usando o titulo de “funcionário do estabelecimento”) para que os progenitores, ávidos por um tempo a sós e de uma distracção do seu petiz de maneira que efectuassem as compras natalícias restantes. O miúdo acompanhava Felipe com passos inseguros e cautelosos, parecia que estudava aquele espécime vestido de forma tão peculiar, o miúdo observava a sua postura cabisbaixa, o seu rosto escarpado e sujo (pelo menos assim era a parte da sua cara não tapada por aquele aglomerado de pêlos sintéticos de baixa qualidade), o seu cheiro a fritos e suor, o seu andar vagaroso, desconfortável e cansado e a maneira ridícula com que lidava com aquela gigantesca e reles imitação de gordura na sua zona abdominal. O Pai Natal Filipe era uma aparição peculiar e cómica, a cara, como que sugada pela sua nuca, era repleta de rugas e muito escarpada, as barbas eram completamente

sinto-me: a recitar
música: Running up that hill - Placebo

2 comentários:
De Rafeiro Perfumado a 12 de Maio de 2009 às 08:34
Isto não vai descambar em pedofilia, pois não?


De Moyle a 13 de Maio de 2009 às 12:46
o Dr. Douradinhos arranjou um discípulo, querem ver...


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