Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Natal contemporâneo (parte VIII)

 Nos dias que se seguiram Felipe continuou a observar o miúdo, durante o horário de expediente da sua gancheta. Era reconfortante para ele ver um pequeno homo sapiens, preferir a reflexão ás truanices dos demais.

 Mas outra coisa ocupava os pensamentos de Felipe. O último dia do seu calvário aproximava-se, e para despedida gloriosa o Pai Natal, iria atirar rebuçados e outros aglomerados de açúcar á população com menos de metro e meio, ao som da música “mexe-te como um molusco” o jingle promocional da mascote do centro: o “Mexilhão Brincalhão”, ao que parece todos os animais dignos já estavam escolhidos e não restou outra hipótese ao centro comercial se não recorrer ao poço fundo dos moluscos, e mesmo dentro dos moluscos nem podiam escolher um molusco dos bons, restavam-lhe as lapas, as santolas e os mexilhões. A grande questão na cabeça do alegado velhinho do pólo Norte era se fazia-lo com a indiferença juvenil e rebelde de Kurt Cobain, ou com a dignidade perante o cepo de Carlos I.

 Quando o fatídico momento chegou, Felipe pôde observar aquela potencial súcia numa patuscada berrante e insuportável, previsivelmente, o miúdo prodígio mantinha-se á parte de todo aquele chavascal. A sua indiferença fascinava e seduzia Felipe, da mesma maneira que aquele momento fascinava e seduzia as restantes crianças menos afortunadas intelectualmente. E aí, neste momento insólito, Felipe (talvez influenciado por todo aquele ajuntamento de fascínio) apercebeu-se de algo que iria mudar a sua maneira de ver a infância:

 

sinto-me: extenuado
música: The crawl - Placebo

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Natal contemporâneo (parte VII)

 

 

 

 

 

Breve nota editorial: como talvez já se aperceberam, isto não se vai alongar para doze partes, deve quedarse nas oito ou nove

 

 

O Pai Natal Filipe era uma aparição peculiar e cómica, a cara, como que sugada pela sua nuca, era repleta de rugas e muito escarpada, as barbas eram completamente desproporcionais ao tamanho do seu crânio, o peito era praticamente inexistente, o que fazia a prótese abdominal sobressair forma exageradamente deslocada, as pernas bamboleavam dentro das generosas calças xxl e as botas achinelavam produzindo um som tão agudo que, por vezes, apenas os cães o conseguiam ouvir.

 Como estava na sua pausa de almoço (um momento off camera do seu trabalho para o jornal) Felipe ofereceu a refeição ao garoto, garantindo-lhe qualquer iguaria que não ultrapassasse a módica quantia de seis euros. O miúdo pediu um hamburger e um refrigerante de sabor artificial e indecifrável, Felipe desejou douradinhos com arroz e água da torneira, apesar de ter meios para pedir um manjar diferente de 70% das suas refeições, Felipe não se sentiu no direito de pregar tamanho susto ás suas papilas gustativas.

 Depois dos cumprimentos burocráticos, Felipe iniciou um chorrilho de perguntas existencialistas, disfarçando-as da melhor e mais pedagógica maneira que lhe ocorreu: em vez de perguntar: “aceita a existência de um Deus?” perguntou: “acreditas em Jesus?”, em vez de perguntar: “acredita na vida após a morte?” perguntou:”o que queres ser quando fores morto?”, em vez de perguntar “o que julga do rumo que a sociedade do século XXI está a tomar? Não julga que nos estmaos a caminhar par um relativismo e ambiguidade cultural?” perguntou “o que achas nos outros meninos? São um bocado burros não são?” (Felipe não era a pessoa mais pedagógica convenhamos).

 E todas as respostas do miúdo o fascinavam gradualmente mais um bocadinho, nunca assistira a semelhante potencial, tanto realismo, tanta consciência melancólica e deliciosa, tanta apatia desistente, tanto espírito de mártir. Felipe deu por si a desejar coma ardência poder assistir ao desabrochar daquele bolbo tão rico.

 Para o miúdo era giro ver a aquele falso ídolo do meio onde ele próprio se inseria (era assim que via o Pai Natal) a comer com ele numa apertada mesa para dois num centro comercial, a deixar cair migalhas amareladas no chão, a sujar a manga do fato com ketchup, a coçar discretamente a pele irritada por aquele material sintético que certamente lhe ira provocar a mais épica das alergias. A crème de la crème foi quando o Pai Natal fumou deliberadamente á frente de uma criança, e tossiu compulsivamente expelindo pelos lábios o mais asqueroso dos escarros.

 Aquele encontro deixou Felipe num estado de espírito bastante aproximado da alegria, longe do falso nirvana que era obrigado a assistir diariamente por aqueles dias, mas estava relativamente feliz ainda assim.

 

sinto-me: editor
música: Ornatos Violeta - Dama do sinal

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Natal contemporâneo (parte VI)

Tudo aconteceu no seu oitavo dia de tortura. No meio de todos os recipientes de piolhos com pedidos banais (uns mais excêntricos que outros) ouve um pedido que se destacou dos demais, um desejo que revelou uma personalidade com potencial, um miúdo que se tornava um paradigma em potencial do ser humano, aos olhos de Felipe claro.

 Esse profeta em miniatura apareceu de tarde, e quando perguntado o que queria ele pelo Natal, o iluminado disse que: “queria saber porque estava vivo, e queria nunca ser como os outros meninos que não pensavam nisso e eram fáceis de enganar” e aproveitou para acrescentar que “não acreditava no Pai Natal e que o senhor é só um homem normal vestido de uma maneira engraçada”.

 Felipe reviu-se a si próprio naquela criança, as preocupações existenciais, o desprezo pelo resto da humanidade, a atitude snob, tudo naquele rapaz suscitava em Felipe uma adoração narcisista. Aquilo sim era um exemplo para a humanidade, aquilo sim era uma criança consciente, aquilo sim era um protótipo de uma sociedade inteligente. Tão novo e tão consciente pensou repetidas vezes Felipe, deleitado pela personagem que conhecera naquele dia.

 Nos dias seguintes Felipe (na sua posição privilegiada) observou os hábitos do miúdo (que era na realidade um habitué daquela superfície comercial) Filipe observou a sua maneira de andar, de mãos nos bolsos, olhos no chão, movimento lento e pesaroso e atitude melancólica, observou que tipo de montras o rapaz via, montras de livrarias, e olhava para os livros com fascínio, emitindo um suspiro que produzia o som “hmmpfh” e significava “quem me dera saber ler”, observava a maneira com que olhava com desdém e desinteresse para os outros miúdos, observava a maneira pensativa como o rapaz olhava para insectos mortos. E tudo isto fascinava Felipe, todo aquele brilhantismo em bruto fazia o seu espírito rejubilar, todas as semelhanças entre o miúdo e ele criavam um sentimento de ternura platónica e paternal e enchia-o de esperança de haver alguns mais iguais a eles.

 Até que um dia Felipe teve a oportunidade de falar com ele. A tarefa de um estranho ficar sozinho com uma criança pode parecer improvável, tendo em conta os índices de confiança no próximo actuais, mas torna-se muito mais simples quando esse mesmo estranho está trajado de um largo fato vermelho com gorro, barba postiça e botas de plástico. Bastou a Filipe oferecer-se como ama (usando o titulo de “funcionário do estabelecimento”) para que os progenitores, ávidos por um tempo a sós e de uma distracção do seu petiz de maneira que efectuassem as compras natalícias restantes. O miúdo acompanhava Felipe com passos inseguros e cautelosos, parecia que estudava aquele espécime vestido de forma tão peculiar, o miúdo observava a sua postura cabisbaixa, o seu rosto escarpado e sujo (pelo menos assim era a parte da sua cara não tapada por aquele aglomerado de pêlos sintéticos de baixa qualidade), o seu cheiro a fritos e suor, o seu andar vagaroso, desconfortável e cansado e a maneira ridícula com que lidava com aquela gigantesca e reles imitação de gordura na sua zona abdominal. O Pai Natal Filipe era uma aparição peculiar e cómica, a cara, como que sugada pela sua nuca, era repleta de rugas e muito escarpada, as barbas eram completamente

sinto-me: a recitar
música: Running up that hill - Placebo

Domingo, 3 de Maio de 2009

Natal contemporâneo (parte V)

A dúvida manteve-se até a larica das quatro da tarde se apoderar do seu organismo, porque estaria ele a tentar enganar-se a si próprio? Era um fraco, sempre o fora, em circunstância alguma teria o perfil de mártir, não tinha outra hipótese se não falar com o editor, dizer que apesar da ideia de prostituir a sua integridade o enojasse de maneira astronómica, a oferta era demasiado única para ser recusada. O director aproveitou esse momento de derrota do seu tecelão de angústia para o informar que, a direcção do jornal achara melhor gravar a vivência do desgraçado e vende-la como suplemento do jornal.

 No dia seguinte, como acordado Felipe vestiu o seu redundante uniforme vermelho, a sua desconfortável barba postiça, o seu gorro feito de poliéster do mais barato, e uns sapatões pretos de um plástico tão barato que dava a impressão (talvez verosímil) que se desintegravam a cada passo.

 Quando chegou ao centro comercial designado, Felipe sentou-se num pomposo cadeirão barroco (todo ele feito de material barato), e preparou-se para a sua missão de apaziguar os desejos do fruto da carne de todos os ateus culturais que ele desprezava. Via as crianças como idiotas conformistas em potencial, pois via os adultos como idiotas conformistas. As pobres crias eram como barro nas mãos de todos aqueles relativistas todos pertencentes á seita do não causar desconforto, como poderia alguém relevante crescer num seio de esferovite social, sim porque 90% da população eram esferovite, inútil esferovite que só serve para encher e ocupar espaço, efémera esferovite que não faz falta ao grande plano, mentecapta esferovite que desconhece qualquer propósito, conformista esferovite que não estabelece qualquer objectivo. Também Felipe se sentia como esferovite, a diferença entre ele e o comum dos mortais é que, ele estava consciente da sua condição, daí a sua frustração.

 A introspecção e auto-comiseração foram abruptamente interrompidas por volta das dez da manhã, hora em que uma enchente de desperdício de oxigénio em potencial cobriu toda a sua perspectiva ocular. Os homens e mulheres de amanhã surgiam aos magotes á sua frente, Felipe era subitamente um ídolo, um Deus da perfeita utopia que é a infância, todos aqueles infantes projectavam nele os seus desejos, e nem todos os desejos eram simplesmente consumistas, alguns pediam o fim da fome, outros a reconciliação dos seus progenitores, e era a ele que o pediam. Se Felipe fosse um bocado mais megalómano teria apreciado o que se sucedia, mas Felipe não era megalómano, insatisfeito sim, snob absolutamente mas megalómano não era certamente. Por isso foi com pesar que acolheu no seu colo todos aqueles ranhosos, foi com pesar que ouviu as músicas de Natal tão repetidas e iguais, foi com pesar que pensou o quão reles a sua situação era, foi com pesar que comeu a comida de plástico que lhe estava destinada para o almoço, foi com pesar que passou o resto das horas sentado a ouvir pequenos trolls.

 Depois do seu pesado horário de expediente de dez horas, Felipe chegou a casa (ainda mais) deprimido, zonzo, cansado e sujo por se ter rebaixado daquela forma. Ao menos o dinheiro extra que o centro comercial lhe delegava iria permiti-lo comer rissóis de carne três a quatro vezes por semana, não era grande apreciador de rissóis mas sempre dava para desenjoar dos douradinhos e refeições “basta adicionar água” baratas que constituíam a sua alimentação.

 Os dias repetiram-se, sempre iguais, barulhentos e estonteantes, talvez cada vez mais estonteantes, devido á fadiga acumulada. O benefício que esses dias iguais lhe traziam, é que tornavam a sua situação rotineira, e como tal o sentimento de rebaixamento ia diminuindo. Até que um dia a berrante rotina de Felipe sofreu um abalo menor, que viria a ter percussões maiores e afectar a sua maneira de pensar.

 

sinto-me: desconfortável
música: Daft Punk - Technologic

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